
Hoje é dia do médico mas, por favor, não me dê os parabéns. Guarde pra alguém que leia o que estou prestes a escrever e não se identifique com nada.
Não faço Medicina porque sou altruísta.
Na verdade, não sou nem metade tão altruísta quanto eu sinto que deveria ser. Quando acordo de manhã, não paro e penso no que posso fazer de útil durante o dia. Não vou até a cozinha tentar lavar nada, não arrumo as contas da casa correndo, não ligo pra minha mãe pra perguntar como foi a noite dela – que, acreditem, é sempre difícil. Não. A primeira coisa que eu faço quando acordo é abrir meu armário e pensar que roupa vou usar. E isso é triste, e patético. Quando eu era mais nova, a primeira coisa que eu fazia era beijar meus pais, independente do que o meu dia me reservava. Eu era mais nobre, e mais carinhosa.
Não faço Medicina porque sou dedicada.
Tudo que eu pensei que eu era durante meus tempos de colégio se desvaneceu com uma rapidez absurda desde que entrei na faculdade. Quando tenho uma prova muito importante chegando, eu me preparo para estudar, mas procrastino e protelo até não poder mais, inventando mil desculpas pra ler a matéria com o amor por ela que eu tenho. Escondido, em algum lugar, esse amor aparece sempre no meio do estudo, quando entendo alguma coisa fascinante sobre nosso corpo ou quando me imagino diagnosticando e salvando a vida de alguém. Mas não. Antes disso acontecer, eu ouço música, toco violão, vejo How I Met Your Mother, penso na vida, escrevo no blog ou simplesmente olho para a parede, fazendo nada. Uma vez, fiz faxina em todo o apartamento só pra adiar o estudo. Então, não venha dizer que eu sou dedicada. Quando eu era mais nova, no meu primeiro ano de vestibular, eu tinha esse papel com um horário louco de estudo preso em um quadro no meu quarto, no qual eu me afogava nos livros de cursinho diariamente e, juro, eu planejava coisas como “meia hora de descanso: ver Friends”. Nos intervalos de almoço, eu colocava “Até o Fim", dos Engenheiros do Hawaii, pra tocar no som. Eu era mais apaixonada, e mais disciplinada. Meio louca também, mas enfim.
Eu, definitivamente, não faço Medicina porque sou boa.
Eu quero ser boa, quero muito. Mas não consigo, porque existe essa parte de mim que tende a agir de forma estúpida quase todos os dias. Eu falo muito – acho que sou uma das pessoas que fala mais palavras por dia que eu conheço. Mas uns 80% do que eu falo é ou idiota ou completamente irrelevante. Eu tinha escrito 90%, mas mudei para 80% porque valorizo algumas das minhas piadas, isso eu devo admitir. De resto, pouca coisa importa, faz diferença ou ajuda alguém. Além do mais, há um tempo atrás, eu diria que nunca quis fazer mal nenhum a alguém, mas ultimamente as coisas mudaram e não consigo me concentrar completamente durante uma das minhas aulas, porque fico tendo esses breves surtos de ódio a um professor, que fez minha vida virar de cabeça pra baixo ao tomar uma pequena decisão baseada no próprio egocentrismo. Quero dizer, as pessoas podem até não acreditar na teoria do caos, mas eu não consigo ignorar o fato de que uma simples decisão afetou tanto minha vida e meu psicológico, em diversos aspectos. Mas prefiro não entrar nesse assunto, pois sempre me faz parecer em crise de auto-piedade, coisa que odeio.
Sinceramente, eu não sei se um dia serei a médica estereotipada que o mundo idolatra no dia de hoje. Se eu serei realmente digna de toda essa babação de ovo, com milhões de textos lindos e vídeos com músicas instrumentais de fundo colocando os médicos num pedestal por cuidarem das outras vidas com tanta atenção, conseguindo conciliar família e trabalho, fazendo o bem e sem reclamar por tudo, como hoje eu faço.
Eu sei que é isso o que eu quero. Eu sei que o desejo por ser assim é o que me mantém na faculdade, fingindo que não me importo com as noites mal dormidas, que não morro de medo de ter tomado a decisão errada e de nunca ser forte o bastante pra isso. Fingindo que a Medicina só me fez bem e que a reviravolta do último semestre não me atingiu em nada.
Eu sei que eu quero um dia parar de fingir e realmente não me importar com a falta de sono, com a incerteza ou com o rumo que as coisas tomaram. Por isso, já disse, não me dê os parabéns hoje. Eu não sou digna de nada a mais só por fazer Medicina. Existem centenas de iletrados por aí que, tenho certeza, são mais dignos desse parabéns hoje do que eu.
Mas eu quero dormir hoje com a esperança de que um dia serei.
Sendo assim...
Futura eu, Feliz Dia do Médico.
Enviei esse texto pra mim mesma (versão 2015) através do site “FutureMe.org”, onde você pode enviar um email para si mesmo que só será recebido em uma data futura, a sua escolha.
Entrem na brincadeira. Levando em conta a teoria da relatividade, é a segunda melhor forma de viajar no tempo.








